10.1.13

Intimidade

[Luiz Felipe Pondé]

Duas coisas me encantam: o amor e a intimidade. Sou daquele tipo de pessoa que tem preconceito contra quem não é capaz de se sujar de intimidade.

Sou um homem de obsessões. Uma delas é que não controlamos a vida. Mas, mesmo assim, devemos tentar ter algum controle sobre ela. Ao final, sempre somos derrotados. Se pensarmos nisso, nada vale a pena. Mas, antes da morte, tudo vale a pena justamente porque nunca venceremos a batalha. Não há qualquer outra dignidade na vida além da do herói épico que combate 1 milhão de inimigos.

Revi o maravilhoso "Revelações", com Anthony Hopkins (Coleman Silk) e a bela Nicole Kidman (Faunia Farley). O filme é baseado no romance de Philip Roth "A Marca Humana".

Este romance guarda um segredo que não deve ser revelado, sob pena de destruir seu impacto. Ele devia ser lido por todo mundo acometido da doença do século: a superficialidade de alma. Não se combate essa doença com alguma teoria sobre a vida (como pensam os superficiais ilustrados), mas unicamente com o mais puro
impasse.

Silk é um "scholar" de literatura que tem sua vida destruída porque usa a palavra "spook" ("fantasma", mas que tem um segundo possível significado, "negro", no sentido pejorativo) para dois alunos que nunca iam à aula.

Apesar de que ele não os conhecia, e, portanto, não sabia que eram negros, os dois alunos "se ofendem" mortalmente e, por isso, Silk sofre um processo na universidade por racismo. É humilhado por seus colegas. Pede demissão. Sua mulher morre do coração de desespero. Ele tem sua vida arruinada. A universidade, como sempre, quanto se trata de política, é o pior antro de canalhas da face da Terra.

Intelectuais são os "comissários do povo" mais temíveis da história. Comissários do povo eram canalhas comunistas que serviam a ideologia do partido. Intelectual com ideologia deve ser evitado como uma praga.

Sou um vocacionado à tristeza, mas resisto bem. As pessoas a minha volta sempre me salvam, mesmo que sem querer. Livros e filmes como esses me deixam felizes porque vejo neles o que vejo em mim: o sentido da vida que brota do fracasso, do impasse.

Roth sempre narra como indivíduos são esmagados por processos históricos. Neste caso, a hipocrisia neopuritana que se alimenta do antirracismo, fruto imundo da luta pelos direitos civis nos EUA, e que corrói a universidade como uma "peste do bem". Todos devem provar que não têm preconceitos (como em outros tempos teriam que provar a fidelidade ao partido ou a pureza racial) e, por isso, as palavras e os gestos são controlados no detalhe.

Coleman e Faunia se apaixonam. Ele, um velho deprimido ("Graças a Deus inventaram o Viagra"), ela, uma jovem pobre desgraçada, faxineira, com três empregos, que "matou seus filhos" num incêndio, espancada pelo marido, abusada pelo padrasto, abandonada pelos pais.

Todos são contra. Seus amigos, ex-amigos, inimigos, advogado. Ele é acusado de abusar de uma mulher jovem e pobre. Mulheres mais velhas odeiam quando mulheres mais jovens se apaixonam por homens mais velhos. Ela é acusada de querer dar o golpe da barriga. Ele é culto e sofisticado, ela fala "to fuck" ao invés de "fazer amor". Vulgar, se veste mal e limpa a merda dos outros o dia todo, todos os dias.

Mas eles têm aquele tipo de amor que brota dos restos do gozo e da intimidade suja, do afeto úmido que mora entre as pernas das mulheres. Um microcosmo no qual o materialismo vence sua pobreza. Uma vitória do corpo sobre o medo.

O filme é uma profunda prova do fracasso do sentido das coisas. Tudo na narrativa constrói a destruição do sentido da vida. O único lugar onde Coleman e Faunia existem é na solidão gloriosa do sexo.

Num dado momento ela chama a atenção dele para que tudo que existe entre eles é sexo. Ele insiste que não. Ela diz para ele que ele pensa assim porque não faz sexo há muito tempo.

A intimidade física entre uma mulher e um homem é de fato uma das maiores experiência da vida. Em meio aos restos dela, no encontro entre a saliva e o sexo, podemos encontrar alguma alma que valha a pena.

15 comentários:

[Pinup Me] disse...

"O único lugar onde Coleman e Faunia existem é na solidão gloriosa do sexo."

E é
justamente disto que não abdico.

(^^^)

Mr. Pain disse...


Eu também gosto muito de existir na solidão gloriosa do sexo, desde há algum tempo.

Chegado à meia-idade, a força muscular já não é a mesma de outros tempos e há que poupar as minhas ricas cruzes: fico eu por debaixo, de barriga para o ar, e deixo que a parceira, por cima, faça o trabalho árduo de flectir a anca ritmicamente...

Melhor dito: agora eu é que fico a observar o teto, o candeeiro, as sombras das paredes. Por vezes bate uma solidão gloriosa, sim...

Facto.

Mr. Almost disse...


Costumo ser um pouco tímido para conversar sobre a "intimidade física", essa tal que é "uma das maiores experiência da vida" e, por isso, normalmente fujo às questões directas...

Mas há uns dias, durante um jantar, fizeram-me uma pergunta atravessada a que eu não resisti responder:

Ela: - Eu só vou para a cama por amor, e você, P?

Eu, pensando instantaneamente:

- «E já tá perguntando para me foder depois, né não?»

Eu, respondendo realmente:

- Well, eu só vou para a cama por tesão ou por ter sono. Por amor, apenas janto e te levo a casa de seguida, a menos que queira voltar de taxi.

O Pior Homem do Mundo disse...


O moço tinha razão ao insistir que não: o que existe entre homem e mulher não pode ser apenas sexo, tem de ter "uns" preliminares, sim senhor!

[Pinup Me] disse...

Mr. Pain, já teve visões assim,
em tal posição?

Ricardito, zangado-de-momento. disse...


A Geisy Arruda também sofreu um "processo" de Bullying por parte dos colegas, alunos na Universidade Uniban, que fez com que ela se tornasse uma «socialitê».

Malditos alunos da Uniban!

Entretanto, já na condição de "famosa", Geisy tem falado imenso sobre a sua intimidade e revelou que fez uma cirurgia íntima para retirar uma couve-flor que tinha agregada à vagina. Agora, que Geisy falou sobre a sua intimidade, está pronta para o amor a partir do dia 22 de janeiro, altura em que, recuperada da cirurgia, poderá transar sem restrições.

Acredito que um "encontro entre saliva e sexo" não prejudicaria a recuperação clínica até lá; acredito até que Geisy deverá aproveitar urgentemente o tempo, porque - segundo fontes médicas credíveis - o cirurgião cortou as folhas à couve, mas deixou ficar as raízes...

E de novo Geisy será notícia,tudo por causa do preconceito e dos

malditos alunos da Uniban!

Amèlie disse...

Mr. Pain:

Há uns pós feitos com presa de elefante moída e chifre de rinoceronte.

Não ria, não é bruxaria, é verdade!!!

Custam uma fortuna em toda Ásia, fique sabendo.

Risos e aqueles beijos!!!

Amèlie disse...

Pior


"Preliminares" são aquelas frutinhas coloridas que recheiam os panetones?

Hein???

;-)

Cora disse...

Não, Mèleca tonta!

"Preliminares" = picles.

tsc...tsc... acertei?

Amèlie disse...

Cora, santinha!

E não é que usted periga ter razão?!!!

Risos

Mr. Pain disse...


Doce Amèlie,

Todo o enredo da descrito na narração do meu humilde comentário só é aplicável na generalidade.

É claro que existem sempre, aqui e ali, excepções, digo, amantes excepcionais que sabem nos levantar da letargia.

PinUp Me:

Estou meio desconfiado sobre vossa senhoria. Aquelas alegorias do "mUntado" e da "fast song" causou-me uma coceira nas virilhas tão forte que nem comentei o post por falta de dedos disponíveis.

"Visões"?

Visões em "tal posição"?

Minha filha, em todas e quaisquer posições há sempre visões. Se não entende ou nunca observou isso, desista de copular por uns tempos e dedique-se ao tricôt.

Após isso, imagine as visões do tricôt: compenetre-se na agulha, no fio, na malha, na lã, na trama, tudo se enlaçando, tudo se encandeando...

Vai chegar lá.

O Pior Homem do Mundo disse...


Cachorrinhas,

vocês só pensam em comer, danadas!

"Preliminares" não são pickles,

são são aquelas frutinhas coloridas que recheiam os panetones.

Um petisco "al dente"!

Mr.Pain disse...


Facto!

Mr. Almost disse...


Pickles?

Assim, duas azeitonas verdinhas espetadas?

Ok,

Dois Dry Martinis, please!

Sweetheart:

Txin-txin!

(Bate o teu copo no meu para ser feliz... and kiss me slow and sweetly!)

Sylvio de Alencar. disse...

"A intimidade física entre uma mulher e um homem é de fato uma das maiores experiência da vida."

Discordo frontalmente.
Às vezes, o que a vida nos oferece é um toque, ou somente um olhar.
Com isso não quero desmerecer, ou negar integralmente o que Monsieur Pondé escreveu.

Elevar o sexo às alturas, colocando-o num pedestal, é ignorar outras celebrações pelas quais elevamos nosso espírito; isso não é desconhecido pelas pessoas mais sensíveis, experientes, e honestas consigo mesmas.

Claro que para e chegar a pensar desta forma temos que percorrer um caminho, e neste caminho encontraremos oportunidades de fazer sexo prazerosamente, ou não. Convenhamos que, durante uma boa parte de nossas vidas o sexo é colocado na frente de muitas coisas, normal.
Para muitos ele continua na frente até o grand finale; para outros mais felizardos que o misturam à sentimentos e fazem dele uma celebração mais profunda, o bônus é maior.

Obrigado pelo convite, Amèlie. Tenho um blog também...
Creio conhecer alguns visitantes de seu blog (muita coincidência), escrevo a bastante tempo.
Achei o seu bem interessante: tem vida própria. Admiro quem escreve, quem se expõe, quem diz o que tem para dizer. Admiro e respeito.

Meu blog é primário, não tenho tags; mas, dá pra apreciar...

Mando, por aqui, um carinhoso abraço; e, saudades.

Agradeço seu convite.