2.5.11

Amor?

Quem, do outro lado destas linhas, se arriscaria a afirmar, sem medo de faltar com a verdade, que nunca viveu ou que se considera isento de vir viver uma relação amorosa marcada por algum tipo de violência - seja ela física, moral ou verbal? Quem, entre todos nós, estará livre da veleidade de tomar um rompante de ciúmes, próprio ou alheio, como prova de amor e inocente alimento para a autoestima, e não como exercício inconsciente e perverso de dominação e poder? Que outros mecanismos podem fazer com que uma relação baseada no mais sublime dos sentimentos, o Amor, deságue ou degenere em algum tipo de opressão ou violência? Como saber aonde termina o Amor e começa o phátos do Amor? Até aonde este impulso gregário, intrínseco à condição humana, pode levar, quando o Belo, que lhe é inerente, insiste em se manter vivo sob, a despeito e acima de quaisquer circunstâncias, por mais terríveis que elas sejam?

(...)

Fruto de um ano de pesquisa de campo, envolvendo a coleta de cerca de 60 depoimentos em áudio; duas semanas aproximadas (e descontínuas) de filmagens; e mais de 500 horas de edição, Amor? reúne, contrapõe e multiplica, em uma combinação incomum, o viço de oito histórias verídicas (transcritas com fidelidade e editadas com precisão cirúrgica); a força poética da imagem; o dom evocatório da música; e o poder de convencimento das grandes interpretações. Com roteiro assinado por João Jardim em colaboração com Renée Castelo Branco, responsável também pelo trabalho de pesquisa, direção de fotografia de Heloísa Passos, música de Lenine e um elenco formado (pela ordem de aparição) por Lilia Cabral, Du Moscovis, Letícia Colin, Claudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Julia Lemmertz, o filme empreende, em 100 minutos de duração, um mergulho profundo nas águas turbulentas e turvas das histórias de Amor que repetem como um refrão a pior de suas rimas: Dor. Mas procura se manter à margem de todo qualquer tipo de estereótipo, conceito previamente estabelecido, julgamento ou estigmatização, e trazer à tona a todo momento o que lançou e aprisionou aquelas pessoas numa situação extrema e indesejável da qual foi tão difícil se libertar: o que há de mais imanente e universal no Amor - o prazer e a beleza. Uma escolha que busca aproximar o espectador do tema de tal maneira que ele seja capaz de olhá-lo sob um novo ponto de vista: com isenção, transcendência, humanidade e, se possível, com honestidade para saber reconhecer naqueles processos a expressão de seus próprios instintos - dos mais elevados aos mais rasteiros.


Amor?, uma produção da Copacabana Filmes e da Fogo Azul Filmes, em co-produção com a Labocine e o canal GNT, da Globosat, foi filmado em super 16mm e finalizado em 35mm. O longa-metragem chega ao circuito nacional em 15 abril, depois de arrebatar o troféu de Melhor Filme, conferido pelo Júri Popular no Festival de Brasília em novembro passado, num claro indício de que João Jardim e sua equipe de colaboradores atingiram o objetivo.

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